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Fonte desta matéria: Revista Próxima Viagem |
Gente, voltei!!!!!!!!!!!! eu voltei!!!!
Quanta saudade eu estava de vir aqui e escrever algo pra vcs. Depois de uma avlanche de trabalhos e provas, estou de volta, e com coisas novas.
Mas vamos ao que interessa, abaixo, coloco alguns lugares ótimos pra quem for viajar nas férias, que afinal, não está tãaaaao longe assim ou até mesmo pra quem só for passar o final de semana.
Tratamento real na estrada real
Você quer fazer uma viagem com muita história, cultura, gastronomia e, ainda por cima, ser bem tratado? Então vá à Europa. Ou venha para Minas. O caminho por onde fluiram ouro e diamantes ficou marcado de lembranças e costumes que você precisa conhecer. É só seguir nossa proposta de roteiro
Reis, nunca tivemos. Os que aqui reinaram um dia foram monarcas de além-mar em seu nobre direito de explorar o que conquistaram. Árdua tarefa numa terra que, em princípio, nada tinha a oferecer senão o pouco rentável pau-brasil e a mão-de-obra de índios indolentes. Mas eis que se descobriu o ouro, nem tanto mas ouro, e os diamantes, finitos, mas diamantes - e por isso surgiu um caminho entre as minas e o mar, por onde se esgotaram os veios e as jazidas, trafegaram tropeiros, prosperaram contrabandistas e se interiorizaram escravos. Foram duas trilhas, uma delas começando em Paraty, a outra no Rio, e ambas se teriam perdido no tempo se, pelo caminho, não tivessem largado gente disposta a sobreviver além da capacidade das minas que um dia minguaram.
Pois o tempo passou, do ouro surgiu o minério de ferro, dos ermos brotaram vilas e das trilhas fez-se a Estrada Real.
É só um nome, é verdade, não há reis que a tenham percorrido de fato e o único monarca a explorá-la foi um imperador, segundo e último dos Pedros na curta história monárquica brasileira. Mas esse simples nome já levantou a galera da Mangueira no último Carnaval, virou sinônimo de futuro para o turismo em Minas Gerais e sintetiza as riquezas do caminho esquecido, que vão muito além do ouro encerrado e dos diamantes desaparecidos.
Se você acompanhou a verde-rosa na avenida, sentiu um pouco do que é a Estrada Real. Lá estavam, na forma de adornos, adereços ou alegorias as virtudes do novo caminho dos viajantes do Brasil. As cidades-históricas, a maria-fumaça que liga São João del Rey a Tiradentes, a cachaça, os queijos, as pedras preciosas, as esculturas de Aleijadinho e o rico artesanato da região.
Mais que um rei, uma dinastia
Ao som do samba que dizia "Teu chão é um retrato da história / e o tempo não pode apagar/ hoje descubro a beleza/ que faz a riqueza voltar", os espectadores mais atentos viram uma espécie de trailer do que provarão de fato quando decidirem (que tal agora?) fazer a viagem pela Estrada Real.
Não se trata, contudo, de um único caminho, mas de um roteiro completo, que inclui 177 municípios em três Estados, tem 1400 quilômetros de extensão e tantas vertentes e variantes que um único rei não o faria inteiramente - provavelmente seria necessária uma dinastia inteira.
E a grande sacada dessa idéia - sobretudo mineira, porque 162 municípios do trajeto ficam no que os cronistas esportivas gostam de chamar de Terra das Alterosas - é que ela une, através de um longínquo elo histórico, temas e interesses distintos num único produto turístico. Ou seja: você pode percorrer o trecho dos queijos, ou o trecho dos Inconfidentes, ou o trecho da cachaça e estará sempre na mesma estrada. Ou pode misturar vários deles, conforme sua receita pessoal e o resultado será sempre excelente.
O caminho oficial vai de Diamantina - de Xica da Silva e Juscelino Kubitschek - até Ouro Preto - de Tiradentes - e dali se subdivide em dois trechos que, em épocas distintas, serviram para o escoamento dos tesouros das Gerais. O mais velho deles passa por São João del Rey e por Tiradentes, avança pelo território esotérico de São Tomé das Letras, invade as águas puras de Caxambu e São Lourenço, transpõe o Vale do Paraíba por Guaratinguetá e Cunha e vai despencar no Porto de Paraty. Por essa estrada andaram milhares de tropeiros carregados de ouro, assediados por bandoleiros e por fiscais do império que cobravam o quinto.
O chamado caminho novo desce por Barbacena, Juiz de Fora, Itaipava e Petrópolis, encerrando-se no Rio e foi adotado para diminuir os riscos da jornada, sobretudo o dos corsários que viviam com o punhal na boca na travessia marítima entre Paraty e a antiga capital imperial.
Pois esse é o desenho da nova Estrada Real que, segundo seu idealizador, Eberhard Aichinger, atual presidente da sociedade sem fins lucrativos que trata de implantá-lo e promovê-lo "tem mais atrações e maior potencial que o próprio Caminho de Compostela".
Paulo Coelho há de discordar, mas Aichinger tem milhares de aliados entusiastas entre os proprietários de estabelecimentos turísticos do trajeto que estão sendo beneficiados pela iniciativa, tendo acesso, inclusive, a uma linha especial de crédito a juros irrisórios para ampliar ou aprimorar os negócios, desde que eles sejam considerados de interesse pelo Instituto Estrada Real.
A questão dos juros, aliás - e lembre-se de que estamos falando sobretudo de Minas -, tirou o chamado pé-atrás dos interessados e, se ainda restavam desconfiados, o fato de a iniciativa não pertencer a nenhum governo e estar, portanto, livre de apadrinhamento político, botou o povo todo de verde-e-rosa em fevereiro, na torcida da mais popular das escolas de samba do Rio.
Que, como se sabe, não ganhou por décimos de milésimos, mas nem por isso atravessou o samba.
O leitor de PRÓXIMA VIAGEM sabe que nossas sugestões de viagem prescindem de longos prólogos como o que você acabou de ler, se chegou até aqui. Mas era preciso mencionar o entusiasmo que envolve a idéia para que você soubesse que, de fato, se vier à Estrada Real, será tratado como um rei.
Não como dom Pedro II, que, embora sempre merecesse pompa e reverência, tinha de enfrentar caminhos penosos, hospedarias sem conforto e demais inconvenientes de um país ainda muito mais pobre no século 19. Hoje as condições estão muito melhores. O rotundo soberano, por exemplo, não podia provar os pães de queijo com lingüiça que agora enchem de água a boca dos viajantes em qualquer bom restaurante de estrada da região; não podia, também - e continuamos no tema gastronomia, visto que nosso último imperador era famoso glutão - degustar os rocamboles de Lagoa Dourada, a cidade em que os habitantes passam o dia inteiro, literalmente, enrolando: massa com goiabada, com doce de leite, com chocolate.
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Legítimo, genuíno ou original
Pois comecemos o roteiro por essa curiosa cidade, autodenominada "capital mundial do rocambole", que fica na BR-383, no caminho natural entre Belo Horizonte e São João del Rey. Duas décadas depois do dia em que nosso monarca foi apeado do trono, um certo Miguel Youssef e a esposa, dona Dolores, decidiram fazer rocamboles para incrementar seu negócio. Deu certo. Tanto que hoje, em Lagoa Dourada, cada pequeno estabelecimento vende o produto. A concorrência anda brava: você pode escolher entre o "legítimo", o "genuíno", o "autêntico", "o verdadeiro", mas nem vale a pena a discussão porque todos são deliciosos.
Ao seguir essa proposta de viagem, que, a bem da verdade, coincide, em parte, com o tradicional roteiro outrora chamado "Cidades Históricas", você descobrirá que a grande virtude do projeto Estrada Real foi incluir no programa lugares e atrações que, antes dela, estavam esquecidos. É o caso de Resende Costa, a próxima parada, que fica alguns quilômetros afastada da BR e, por isso, permanecia desconhecida pelos viajantes menos exploradores. A cidadezinha, pacata e encantadora como tantas outras nas Gerais, guarda tesouros de artesanato, sobretudo produtos de tear. Ali são produzidos de pequenos panos de roca a colchas e tapetes, à venda em quase todas as portas. Para quem gosta de comprar, um tesouro irresistível: lindas peças feitas a mão vendidas a preços inferiores a de equivalentes industrializados nas lojas econômicas das grandes capitais; no meio delas, achados do passado mineiro, utensílios antigos, móveis dos tempos idos - prepare espaço no porta-malas porque coisas assim não se encontram mais.
A viagem segue em ritmo de passeio: poucos quilômetros adiante, outro desvio para Coronel Xavier Chaves, que valeria a pena se tivesse apenas o Engenho Boa Vista, onde se produz a cachaça mais antiga do Brasil, a Século XVIII, que você pode degustar acompanhada de quitutes mineiros como torresmos e corações de frango feitos na hora à guiza de tira-gosto (veja quadro na pág. 36). O proprietário do engenho, Rubens Chaves, descendente direto de Tiradentes na oitava geração, é, também, o dono do antigo solar da família conhecido simplesmente como Sobrado, onde vive e aluga apartamentos no sistema bed & breakfast. Minuciosamente cuidado pela esposa, dona Cida Chaves, o Sobrado é sua chance de viver o autêntico cotidiano mineiro, entre fogões a lenha, retratos de antepassados e pérolas do mobiliário colonial - e cortar a ressaca a bordo de uma olha, tradicional sopa gorda preparada pela anfitriã.
O silêncio e os campanários
E as atrações não param. Pouco mais de 20 quilômetros adiante, você já estará na histórica São João del Rey, que teve a fama ofuscada pelo brilho iridiscente da vizinha Tiradentes, mas é encantadora como as cidades da Beira, em Portugal. Reduto dos Neves - ali nasceram e estão enterrados o presidente Tancredo e a esposa, Risoleta. Dali é também o governador Aécio Neves - espalha-se pelas margens do Córrego do Lenheiro, em logradouros antigos como o Largo do Rosário, a Ponte da Cadeia e a Rua Santo Antonio, das fachadas inclinadas. A cidade é tão visivelmente católica que inspira silêncio, freqüentemente cortado pelo chamado dos campanários. A mais valiosa das igrejas é a de São Francisco de Assis, cujo frontispício foi projetado por Aleijadinho e que guarda, no pequeno cemitério anexo, os restos do presidente que não chegou a tomar posse. Mas, ainda que você seja um ateu, é recomendável visitar, uma a uma, as igrejas de Nossa Senhora do Carmo, do Rosário, das Mercês e a Catedral de Nossa Senhora do Pilar, sobretudo quando houver missa. Os horários de abertura das igrejas são irregulares e dependem da boa-vontade dos párocos, portanto aproveite a espera para visitar as lojas de estanho da cidade, a única na América Latina que manufatura o metal, em dez fábricas diferentes.
Cenógrafos do Projac
Uma linda maria-fumaça (a mesma que você viu reproduzida no principal carro alegórico da Mangueira) e 14 quilômetros separam São João del Rey e Tiradentes. Bom: Tiradentes é o lugar do momento, uma vila colonial tão bem cuidada que parece ter sido criada pelos cenógrafos do Projac. Um presépio de hotéis de charme, ótimos restaurantes, lojas irresistíveis (com preços, infelizmente, já globalizados). Se você já esteve aqui, sabe do que estou falando; se não esteve, está mais que na hora de repensar seus destinos.
A essa altura da viagem você já terá elegido suas preferências gastronômicas: um leitão à pururuca crocante, um frango ora-pro-nóbis (feito com a planta homônima, típica de Minas), uma galinha ao molho pardo, gordas feijoadas, doce e leite, goiabada e inúmeras variações contemporâneas desenvolvidas, sobretudo, pelos restaurateurs de Tiradentes, como Carlos Eduardo de Castro, do Theatro da Villa, a suave Zenilca, do Tragaluz, ou a atenta Beth Beltrão, do Viradas do Largo. Meta-se em trilhas e cavalgadas, se o remorso bater - a Estrada é cheia de programas na natureza -, ou siga pela estrada de terra que serpenteia ao lado da linda Serra de São José rumo à Comunidade do Bichinho. Sem asfalto, com a eventual companhia de carros de boi, nesse trecho você estará muito mais próximo do clima dos anos em que o ouro refulgia nas batéias. O vilarejo, Distrito de Prados, tornou-se um reduto de artesãos desde a implantação, em 1989, da hoje internacionalmente conhecida Oficina de Agosto. Desça do carro e vá entrando nos ateliês. Tem o Berzé pintando, o Marcello Maia esculpindo gordinhas em cabaças e papel machê, dona Carmem produzindo bordados, Marinho tirando esculturas da madeira bruta. E tem muito mais gente fazendo arte em qualquer portinhola, é só entrar, mas não vá esperando por pechinchas porque os comerciantes de Tiradentes, principais clientes do Bichinho, já impuseram os preços que praticam nas lojas, sob pena de suspenderem as encomendas.
Pérolas no caminho
A estrada segue até Prados, que tem um pequeno centro histórico colonial, mas ficou conhecida pelos gigantescos animais de madeira esculpidos pela família Julião, no Bairro do Caraça. Vale a pena vê-los trabalhando, assim como vale a pena conhecer os artesãos da Selaria do Zé Franco, há mais de 100 anos enfeitando e equipando cavalos e jumentos de toda a região.
A partir de Prados, começa a segunda parte do roteiro. Retorne pela BR-040 (não deixe de comer o pão de queijo com lingüiça no Café com Prosa, à beira da estrada em Entre Rios) até Congonhas. Os doze profetas de Aleijadinho e as 64 imagens de cedro talhadas pelo famoso escultor e pintadas por Mestre Athayde nas capelas anexas são os únicos e indispensáveis motivos para você visitar a cidade. Os turistas europeus, que circulam pelo complexo como se estivessem em casa, sabem que não é qualquer obra que merece ser tombada como Patrimônio da Humanidade.
Nas entranhas da terra
O próximo destino é Ouro Preto, mas siga as pistas da Estrada Real e escolha a sinuosa estrada que sai de Ouro Branco. A desolação das montanhas laceradas pelas empresas de mineração é logo substituída por uma serra espetacular, com vistas para o Pico do Itacolomy, cachoeiras e pontes usadas no tempo dos tropeiros. Dez quilômetros antes da antiga Vila Rica, saia à direita e conheça Lavras Novas. A mais de 1000 metros de altura, Lavras Novas é um reduto de pousadas charmosas (veja na Agenda de Viagem), trilhas, mirantes e esoterismo. Uma ótima opção para se hospedar ao lado de Ouro Preto com o bucolismo de antanho. Porque, é claro, antanhos não faltam na principal capital do ciclo do ouro, mas o bucolismo deu lugar a um mundo de repúblicas de estudantes e a multidões de turistas na pista de Aleijadinho, de Tiradentes e de uma certa Marília de Dirceu.
Além do circuito das igrejas, que inclui os 430 quilos de ouro laminado no altar da Matriz de Nossa Senhora do Pilar - o templo mais rico de Minas Gerais - , Ouro Preto é um reduto de bons hotéis, boa comida e lembranças do Brasil colonial onde, mais uma vez, você será tratado como um rei. Você estará bem perto da impressionante Mina da Passagem onde, a 120 metros de profundidade, conduzido por um funicular, terá a oportunidade de ver as entranhas da terra que produziu ouro para o bem de Portugal. E, logo adiante, será a vez de observar o belo conjunto arquitetônico de Mariana, a mais antiga cidade de Minas. A viagem é, de fato, real. E para você não perder a majestade até o final, tente visitar a Catedral da Sé numa sexta-feira, às 11 horas, ou num domingo, ao meio-dia. É que nessas ocasiões ouve-se o som penetrante do raríssimo órgão de 1039 tubos, construído em 1701 na Alemanha. Os concertos são breves mas inesquecíveis. Mais um privilégio de soberanos da Estrada Real.
Com a arte no sangue
Supõe-se que a vocação para gerar bons artesãos é atávica na Estrada Real e vem dos tempos em que a riqueza das minas pagava artistas para ornamentar igrejas e casas senhoriais. Em quase todas as cidades que fazem parte do roteiro apresentado nesta reportagem, há trabalhos manuais à venda
e quase sempre nem é preciso procurar muito para encontrar peças de bom gosto e qualidade. O florescimento do turismo também despertou vocações adormecidas e muita
gente se pôs a trabalhar com madeira, couro, bordados para atender à demanda das lojinhas de Tiradentes, sobretudo na Comunidade do Bichinho (veja na Agenda de Viagem). Nessa área, são raras as peças industrializadas, mas os produtos artesanais ficam mais caros ano após ano. Já em Ouro Preto, os trabalhos de pedra-sabão feitos, de fato, a mão, são raros.
Matéria Publicada na edição nº 55. Maio/2004.
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