SEM DOR-DE-COTOVELO
Especialista em registrar a frustração amorosa, o compositor gaúcho não dava brechas à tristeza no fogão. Elaborava pratos com grande prazer, sempre cercado da família e de amigos

Consagrado pelas músicas do gênero dor-de-cotovelo, o compositor popular gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974) não abria espaço para a melancolia quando o assunto era comida. Ao contrário. Fazia do fogão um lugar de prazer e de encontro com amigos. Gostava de comer e de fazer pratos simples, corriqueiros. Mas era exigente nos detalhes: na cebola e no alho cortados minuciosamente ou no agrião, que adornava a rabada cozida com batatas, uma de suas especialidades. "O pai era um excelente cozinheiro", orgulha-se o filho único, Lupicínio Rodrigues Filho, o Lupinho.

O principal trunfo da cozinha de Lupicínio era mesmo a boa mão do mestre-cuca, que usava apenas os temperos mais triviais, como alho, cebola, salsa e manjerona. "Ele preparava uma deliciosa rabada com agrião - cozinhava junto batatas inteiras e, no final, colocava o agrião por cima", conta o filho. "Então, tampava a panela por cerca de 5 minutos e depois servia", diz Lupinho. Havia também a galinha de batuque, feita com sobrecoxas. "Ele reservava um pouco da água do cozimento para preparar um pirão de farinha de mandioca, que levava também cebola e alho cortados bem fininhos", conta Lupinho. A galinha preferida do autor de sucessos inesquecíveis como "Esses Moços" e "Se Acaso Você Chegasse" era frita e acompanhada de molho vermelho e arroz.

A vocação para a culinária surgiu da própria necessidade. Lupicínio era o mais velho de uma prole de 21 filhos de Francisco e Honorina Rodrigues. Nascido em Porto Alegre em 10 de setembro de 1914 - teria completado 90 anos no mês passado -, teve de aprender logo a se virar com as panelas para ajudar a mãe a alimentar os irmãos. Suas maiores inclinações despertaram também muito cedo, já na adolescência: a música, as mulheres, a vida boêmia.

Lupicínio era um homem da noite, dos amigos, das paixões. Extraía dos amores frustrados obras-primas como "Felicidade" e "Nervos de Aço", esta última difundida por gravações memoráveis de Francisco Alves e, mais recentemente, de Paulinho da Viola. Mas o grande intérprete das canções de Lupi, como o chamavam carinhosamente, é Jamelão, que gravou dois discos em homenagem à sua obra, em 1972 e 1987. Entre os amigos, há inspiradores de belas canções como "Esses Moços", dedicada ao jornalista e compositor Hamilton Chaves. "Ele cantou pela primeira vez essa música no aniversário do meu pai", conta o fotógrafo Ricardo Chaves, o Cadão, filho de Hamilton. "Meus pais estavam noivos e minha mãe não gostou, porque a letra aconselhava meu pai a não se casar", diz Cadão.

Lupi bem que tentou unir as vertentes da música, da noite e da cozinha abrindo bares, churrascarias e restaurantes com música, entre eles o Jardim da Saudade, o Clube dos Cozinheiros e o Batelão, todos na capital gaúcha. Gostava de dizer que era mais cozinheiro que compositor. Na casa onde morou com a família - a mulher, Cerenita, e o filho, Lupinho -, na zona sul de Porto Alegre, a comida estava no centro da convivência. "Todo domingo, ele assumia as panelas", lembra o filho. "Lá em casa nunca almoçavam menos de 20 pessoas", conta. Para esse público numeroso, quando tangia o frio do inverno, Lupi costumava fazer o puchero num panelão de 50 litros, que cozinhava por dois dias no fogão a lenha. Na caçarola, combinavam-se todos os tipos de legumes e o osso do peito do boi, de onde vem a carne gorda chamada granito, e também o ossobuco com tutano.

Tinha especial predileção pelos pratos da tradição campeira do Rio Grande do Sul, como o legítimo carreteiro, feito com charque de carne de ovelha. Comprava a carne e a salgava para desidratar. Preparava também um feijão com bastante caldo, depois misturava nesse caldo duas xícaras de arroz já pronto e estalava sobre a mistura meia dúzia de ovos na hora de servir. Era um de seus clássicos. Outra especialidade: as costeletas de porco defumadas, servidas com couve. A simplicidade cheia de requintes se repetia em outros pratos, como a abobrinha verde recheada com guisado, o charutinho árabe e os doces, especialmente a ambrosia, que figura nesta reportagem em versão gaúcha preparada pelo chef Cássio Machado, do restaurante Di Bistrot e do B&B, em São Paulo.

A devoção à comida implicava liturgias à mesa. "Ele gostava de comer, mas jamais tomava bebida alcoólica quando comia; dizia que o álcool embebedava a comida", conta Lupinho. "Mas, depois da refeição, não dispensava um cálice de vinho tinto", lembra. As habilidades de cozinheiro, no entanto, não estão traduzidas na obra de Lupicínio Rodrigues. Numa das raras composições que fazem alusão à cozinha, "Tem Navio no Porto", ele diz: Nunca se deve trocar/o amor velho pelo novo/galinha que come ovo/tá pedindo pra morrer/a mesma coisa acontece/na vida de uma pessoa/que na troca de amor à toa/tá pedindo pra morrer. Em "Juca", há uma referência ao churrasco. Quando se come um bom churrasco com gordura/a mão a gente limpa com farinha/que é pra prenda que está a seu lado, meu irmão/não suje a sua saia engomadinha.

Lupi comprava o porco, mandava matar, fazia banha num fogo de campanha que tinha no fundo de casa e nela estocava a carne, numa versão gaúcha do francês confit. Entre as mais saborosas lembranças do filho estão os momentos passados juntos que tinham a comida como pano de fundo. "Lembro que ficávamos horas embaixo de uma parreira batendo a nata para fazer manteiga", diz. A cada lembrança, ele parece sentir o gosto das coisas que o pai preparava, como o aipim cozido com tiras grossas de charque e tomates inteiros.

Quando morreu, aos 59 anos, no dia 17 de agosto de 1974, Lupicínio Rodrigues era um compositor senhor de sua obra. O tempo passou e se encarregou de consagrá-la. O cozinheiro Lupi, porém, ficou apenas na memória dos amigos e das pessoas próximas. Quem dividiu a cozinha e a mesa com ele tem ainda mais saudade.

Matéria publicada na edição 144 - Outubro/2004    Revista Gula

                                

Olá, pessoas!!!!

I'm Back!!! então gente, como foram de feriado? de final de semana? tudo certinho espero... então... resolvi colocar outra fotinho minha aqui;uma das que tirei no sábado, só pra zoar mesmo.... galera, to meio sem idéia pra postar e tal.... acho que deve ser uma fase,ou não? bom, de qualquer modo,é melhor vir e deixar pelo menos um oi, do que ficar um tempão sem dar notícias.

Beijão a todos que visitam,mesmo que não deixem coments e um beijo maior ainda a todos que os deixam,ok?

Bom final de semana a todos e até a próxima!!!!!

 

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